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Pensamentos, Ideias e Sentimentos.
Ir ao futebol foi um dos primeiros prazeres da minha infância. Não pelo jogo em si, que mal via, mas por tudo o que o rodeava, como se o futebol fosse apenas um pretexto para uma iniciação discreta no mundo dos adultos.
Hoje, o Clube de Futebol Quarteirense possui um estádio digno desse nome, com um relvado cuidado, campo de treino, piscinas interiores e ginásio. Naquele tempo, porém, o futebol era algo diferente.
Existia apenas um campo pelado, nu, de terra batida, adequado a um país pobre e a uma região mais pobre ainda. Naquela altura o turismo era apenas uma promessa longínqua.
Em redor do campo erguia-se uma cintura de pilares baixos, atravessados por um grosso tubo metálico que desenhava uma forma oblonga. Servia para manter o público à distância e, ao mesmo tempo, para se apoiarem. A primeira fila usufruía desse privilégio rudimentar: poder passar cerca de duas horas em pé, com o corpo inclinado sobre o metal frio, como se aquilo pudesse ser conforto.
Quarteira era então uma vila piscatória. Existiam a agricultura e algum pastoreio, mas a vida verdadeira vinha do mar. O clube fora fundado por pescadores e para pescadores. Os mais novos, enquanto a juventude e os pulmões o permitiam, iam jogar à bola entre duas saídas para o oceano. Os restantes ficavam de fora, a observar, a gritar, a torcer, a ameaçar e a insultar tudo e todos.
Apesar disso, aos domingos, vinham pessoas de longe para assistir aos jogos. Juntavam-se em massas compactas, com dez ou mais corpos em profundidade, balançando a cabeça de um lado para o outro numa coreografia involuntária, à procura de um ângulo que lhes devolvesse um fragmento da acção.
Quando o meu pai me levava, era dia de festa. Entrava no pequeno Fiat 127 azul da família com a solenidade de quem participa num ritual. Ir ver a bola com os adultos era uma forma de pertença.
Mas ver a bola, para uma criança com pouco mais de um metro de altura, num estádio sem bancadas, significava outra coisa. Significava ficar preso entre pernas e traseiros, tentando reconstruir o jogo a partir das exclamações, dos palavrões e das súbitas explosões de júbilo ou fúria do público.
Ainda assim, a verdadeira razão para ir ao futebol era outra. No estádio surgiam iguarias raras, reservadas a ocasiões especiais como arraiais, feiras e festas populares. Havia polvo assado e pinhão torrado.
O polvo, duro e salgado, era uma espécie de pastilha elástica marítima, que hoje está praticamente desaparecido. O pinhão, outrora barato e abundante, transformou-se num luxo raro, vítima de tempos mais caros e de substituições mais fáceis.
Com alguma sorte, o meu pai comprava-me um cone feito com uma folha das Páginas Amarelas, com pinhões acabadinhos de assar e acompanhados de um prego de ponta achatada para os abrir. A partir desse momento, o jogo deixava de existir.
Encostado a um pilar, esquecido da multidão e da sua urgência colectiva de um golo, concentrava-me no gesto preciso de introduzir o prego na pequena saliência que a torrefação tinha criado no fruto seco. Ao fim de algumas tentativas, com um estalido seco a casca abria-se.
No interior revelava-se o verdadeiro prémio, um tesouro mínimo e perfeito, uma iguaria que nenhum golo seria jamais capaz de igualar.

Num mundo em constante movimento, a forma como lemos evoluiu. Hoje, temos ao nosso dispor várias opções para mergulhar num bom livro: o telemóvel, os e-readers e o tradicional papel. Cada formato tem as suas vantagens, dependendo do estilo de vida, preferências e contextos de leitura.
O telemóvel é, sem dúvida, o dispositivo mais acessível e prático. Com aplicações como o Kindle, o Kobo, o Google Books ou o Apple Books, é possível levar uma biblioteca inteira no bolso. Para quem lê durante pequenos intervalos — como numa fila, numa sala de espera ou no transporte público —, o telemóvel é imbatível.
Permite ajustar o tamanho da letra, margens e espaço entrelinhas, o brilho e o fundo, o que é útil para leituras nocturnas. Além disso, pode sincronizar com audiolivros ou marcar automaticamente onde se ficou. A grande desvantagem é o potencial de distracção: mensagens, redes sociais e notificações podem facilmente interromper a leitura e reduzir a concentração.
Já o e-reader é muitas vezes visto como o equilíbrio ideal entre o digital e o conforto visual. Utiliza tecnologia de tinta electrónica (e-ink), que imita o aspecto do papel e não emite luz como os ecrãs tradicionais, sendo mais confortável para os olhos. É leve, tem autonomia de semanas e permite armazenar centenas de livros.
Funciona bem sob luz solar, não distrai com aplicações e, dependendo do modelo, permite sublinhar, traduzir palavras ou procurar definições no dicionário. Para leitores habituais, é uma escolha prática, portátil e eficiente.
Por fim, o livro em papel mantém o seu charme intemporal. O cheiro das páginas, a textura, a ausência de ecrãs e o simples acto de folhear criam uma experiência sensorial única. Muitos leitores referem que se concentram melhor com um livro físico, talvez por estarem livres de notificações e de luz artificial.
Além disso, não precisa de bateria, é durável e ideal para anotações manuais ou para oferecer como presente. Contudo, ocupa espaço, pesa mais e pode ser menos prático para transportar em viagens longas ou para quem prefere ter vários livros consigo.
No fim de contas, não há uma resposta certa para a pergunta “qual é o melhor formato para ler?”. Tudo depende do contexto e das preferências pessoais. O mais importante é manter o hábito da leitura, apreciar a arte ou a mensagem que o livro nos traz. Seja num ecrã ou em papel.

Se Eu Quisesse, Enlouquecia, de João Pedro George, é uma biografia extensa e meticulosa sobre o poeta Herberto Helder, resultado de sete anos de investigação. Com quase 900 páginas, o livro constrói um retrato completo e humanizado do autor madeirense, desmistificando a imagem do poeta recluso e genial. Através de cartas inéditas, testemunhos próximos (incluindo da viúva e da filha) e documentação rigorosa, George revela um Herberto contraditório: simultaneamente brilhante e atormentado, generoso e egocêntrico, profundamente criativo mas também marcado por traços de machismo e isolamento.
Um dos pontos mais fortes do livro é a sua capacidade de explorar a dimensão psicológica do poeta — os traumas de infância, a solidão, a experiência da fome, a passagem pela guerra e o exílio. No entanto, a leitura pode tornar-se densa e exigente devido à extensão e ao detalhe com que cada fase da vida é abordada. Além disso, a ausência de algumas vozes familiares, como a do filho, pode limitar o equilíbrio do retrato.
Apesar destas reservas, a obra é considerada essencial para compreender Herberto Helder enquanto figura humana e literária, rompendo com décadas de silêncio e construindo uma narrativa envolvente, crítica e profundamente reveladora.
Esta semana, no seu podcast "Intentionally Blank", o autor Brandon Sanderson mencionou a análise da trilogia "O Hobbit", feita por Lindsay Ellis, no seu canal com o mesmo nome.
A análise é apresentada em três vídeos de cerca de trinta minutos cada, oferecendo uma reflexão cuidada e aprofundada sobre as qualidades e os defeitos da trilogia. É um conteúdo especialmente interessante para quem se interessa por cinema, escrita e produção audiovisual.
Em baixo, os respetivos links:
A MINHA VIDA DAVA UM CARTOON
De Portugal para o Mundo - 30 Anos de Humor
Exposição de Phermad
4 julho a 27 agosto 2025
FARO - Galeria da Delegação de São Pedro
👉 INAUGURAÇÃO:
4 julho / 16h30
Presença do autor e apresentação de "RELATOS DE BONDADE E CRUELDADE" uma edição de banda desenhada e cartoon (candidato a melhor fanzine e webcomic PT 2025 editado por Drmakete Lab).
🌍 SOBRE O PRATO A SABOREAR:
Uma série apimentada com quadros fatiados de tributo a filmes que fazem evadir e viajar, pedaços de absurda surrealidade do Mundo e da Sociedade em transformação/evolução. Por fim, tudo servido com raspas de universo fantástico e criativo do chef.
Bom proveito!
Phermad


A premissa desta questão baseia-se na seguinte ideia: "A Joana Marques disse publicamente que nós (os Anjos), não sabemos cantar e isso causou-nos transtornos emocionais, profissionais e financeiros; no valor de um milhão de euros."
Se o tribunal considerar esta premissa correcta, abre o seguinte precedente a favor da comediante: "A dupla de cantores disse publicamente, que eu (Joana Marques), não sei fazer humor e isso causou-me transtornos emocionais, profissionais e financeiros; no valor de um milhão de euros."
Resultado: Empate Técnico.
Serve para ressalvar que a questão da liberdade de expressão não é importante só no meio humorístico, mas é também, de extrema importância em todos os outros sectores da sociedade.
Sem alongar muito, sigo só com um exemplo: todos os engenheiros que foram contra a construção e operação do submarino Titan, foram, de uma forma ou de outra silenciados, com o resultado que todos sabemos. Essa infeliz situação é, no entanto, um microcosmos do que pode acontecer se retiramos a liberdade de expressão em larga escala.
Outra questão a considerar, é que esta, é uma situação altamente conveniente para ambas as partes envolvidas. A ampla exposição mediática que ambos os lados têm recebido possui um valor significativamente superior ao montante em discussão. Seja publicidade positiva ou negativa, trata-se ainda assim de publicidade.
Há umas semanas, enquanto passava por um daqueles sítios cheios de turistas, fui abordado por um grupo de jovens ingleses — deviam andar pelos vinte e poucos anos. Um deles pediu-me que lhes tirasse uma fotografia com o telemóvel de um do grupo. Coisa simples, pensei.
O detalhe curioso é que, como acontece com muitos jovens hoje em dia, alguns estavam com uns quilos a mais… e outros com bastantes quilos a mais.
Ajeitaram-se como puderam para caber todos na fotografia. Eu, com alguma malícia, demorei mais do que o necessário para tirar a foto. Fiz aquele teatrinho: olhar desconfiado para o ecrã, virar o aparelho, clicar sem efeito… como se estivesse com dificuldades.
“Está tudo bem?”, perguntou um deles, lá do meio.
Esperei uns segundos antes de responder, para dar ênfase.
“Estou à procura do filtro de emagrecimento”, disse, com ar sério.
O grupo explodiu numa gargalhada daquelas boas, sinceras. Alguns até se dobraram de tanto rir. Foi um momento leve, espontâneo, daqueles que nos lembram como o humor tem o poder de juntar pessoas, mesmo que não se conheçam de lado nenhum.
Mas, no meio da boa disposição, surgiu uma voz destoante. Um dos rapazes — que, curiosamente, nem era dos mais anafados — declarou com ar ofendido: “Isso é má educação!”
E pronto, o riso ficou ali a pairar, um pouco embaraçado.
Foi então que fiquei a matutar no assunto. Afinal, será que devemos evitar fazer qualquer comentário com uma pitada de humor, só porque pode haver alguém que se ofenda? Mesmo que o grupo todo tenha percebido a graça e se divertido com ela?
Ou será que vale a pena correr o risco — o risco de provocar gargalhadas, arrancar sorrisos, animar o momento — mesmo sabendo que, por vezes, nem todos irão gostar?
A resposta não é óbvia. Mas a pergunta, essa, continua mais pertinente do que nunca.

Na zona onde eu passei parte da minha infância e adolescência havia um “ritual de passagem”. Era bastante frequente que aos rapazes, uma fez feitos os doze anos, fosse oferecida uma espingarda de pressão.
Eu não fui excepção e nessa tenra idade lá me apareceu um tio com a dita espingarda da marca “Flecha”, que era provavelmente a marca mais barata do mercado e que consequentemente tinha um tiro tão lento que se podia ver o chumbinho prateado a sair do cano, para numa elipse, cair logo ali à frente, a não mais de dez metros de distância.
Junto com a dita espingarda vieram acompanhadas histórias megalomaníacas de safaris africanos e bestas terríveis, que o meu tio dizia, com uma palmadinha nas costas, que tinha caçado com uma “flecha” mesmo igual à minha.
No entanto, eu, apesar de ter algum talento para o tiro e para desilusão total de toda a família, (não seria a primeira vez, nem a última) não tinha grande vontade matar nenhum animal.
Não que eu tivesse alguma ideologia vegetariana. Mas desde cedo que entendia que a morte não deveria ser desporto. Que havia algo de errado e completamente arbitrário na morte de um animal pela gloria da apontaria.
Então a solução, que me divertia tardes a fio, era o chamado “tiro à carica”, começava por colocar várias caricas no pavimento e à distancia tinha de se fazer a carica levantar voo.
A carica na realidade é um alvo péssimo quando assente no chão, pois tem um perfil demasiado pequeno, tornando o tiro extremamente difícil. Ora se passa por cima ora se acerta no chão ricocheteando sem tocar no minúsculo alvo.
Mas lá de quando em vez, o tiro saia perfeito na mira, na altitude e em ângulo certeiro, de forma a conseguir apanhar a carica mesmo pela base, o que fazia a carica levantar voo, à laia de disco voador, rodando interminavelmente sobre si própria e a alta velocidade para realizar uma hipérbole longa e lenta para gaudio do sniper adolescente.
Na zona rural em que eu vivia, havia um lugar que nós chamávamos de “regato”. O regato consistia, como o próprio nome indica, na bacia de um pequeno riacho que entretanto, por uma razão ou por outra tinha secado, deixando na planície o relevo côncavo do seu leito.
Numa altura em que não existiam playgrounds ou halfpipes, a concavidade deixada pelo riacho era o lugar ideal para os pré-adolescentes e adolescentes, fazerem todo o tipo de acrobacias nas suas bicicletas.
Eu e os vizinhos da mesma idade, quando sabíamos que os mais velhos iam para o regato, pegávamos nas nossas bicicletas, para entusiasmados irmos ver as manobras acrobáticas que os mais velhos conseguiam e que nós, os mais novos, assistíamos numa mistura de fascínio e terror.
No entanto, o regato ao longo dos anos tinha ganho uma má reputação juntos dos pais, devido à frequência com que os seus herdeiros apareciam em casa com os braços e pernas partidos e de bicicletas destruídas.
Todos nós fazíamos o possível para que os nossos pais não soubessem que tínhamos ido ao regato, em clara violação das ordens dadas, a custo de uma chinelada ou de pior que isso, ficar sem o brinquedo mais valioso que nós tínhamos: a própria bicicleta.
Um dos saltos mais fantásticos que era possível no regato consistia numa rampa, que tinha uma pista de aceleração de quase cento e cinquenta metros, e que alguém, com todos os requintes de malvadez, tinha exacerbado com um capô de carro inclinado sobre duas pedras, o que tornava o ângulo de lançamento ainda maior.
Se o salto fosse efectuado eficazmente era possível aterrar numa faixa de perto de trinta centímetros de largura, que no intenso Verão, era ladeada por todos os tipos de ervas secas e plantas espinhosas.
No entanto, essa rampa, permitia que um adolescente competente, vindo a toda a velocidade, conseguisse um magnífico voo de um metro e meio de altura, que o faria percorrer mais de doze metros pelo ar.
Até que um dia, estando eu sozinho no regato, tive a brilhante ideia de testar a rampa. Se não corresse bem, pelo menos não haveriam testemunhas para assistirem ao meu falhanço. Esta era a qualidade do raciocínio de um rapaz de onze anos que passava as tardes a ver filmes do Rambo, Chuck Norris e Jackie Chan.
Em vez de tentar um salto mais pequeno, decidi que quanto maior a velocidade, maior a possibilidade de sucesso. Então vim o mais para trás possível e acelerei a minha BMX ao máximo, ladeira abaixo, até que atingi a rampa que me lançou num voo fenomenal que durou vários segundos no ar.
O problema era que ninguém me tinha explicado o truque necessário para completar esta manobra com sucesso: aterrar com a roda de trás.
Resultado: aterrei com a roda da frente. O que imediatamente resultou num capotamento da bicicleta, projectando-me para a frente, onde eu falhando completamente a pequena risca de areia da faixa de aterragem, fiz uns dez metros de rojo, raspando a cara e o corpo na erva seca e espinhosa.
Com o passar do tempo os arranhões curaram-se, as dores desapareceram, mas na minha memória ficaram aqueles dois ou três segundos em que voei sem asas exactamente como tinha imaginado.
A minha mãe nunca soube. Mas, imagino eu que, quase quarenta anos depois, se ela ficasse a saber ainda me tirava a bicicleta.

"Tudo É Rio." foi o livro de lançamento da autora brasileira Carla Madeira. Este pequeno livro prende-nos de uma forma inigualável. É um livro pujante, visceral e emocionante que nos derruba com a sua capacidade de retratar a brutalidade da realidade mais comum. É de certo um dos melhores livros que li dos últimos anos.
A Particular Editora decidiu publicar com a capa ilustrada acima, provavelmente por razões de direitos de imagem. Acredito que se tivessem usado a capa da edição brasileira o "Tudo É Rio." teria permanecido por mais tempo nos tops literários portugueses.
Abaixo segue a imagem da edição brasileira de "Tudo É Rio." de Carla Madeira.

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