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Como Catalogar Centenas de Livros.

por Paulo José Martins, em 21.01.23

Durante muito tempo tivemos o problema de como catalogar as centenas de livros que temos cá em casa. Temos uma quantidade razoável de livros, que estão divididos em várias estantes que por sua vez estão espalhadas um pouco por toda a casa. Temos também muitos livros dentro de caixas de papelão, devido à falta de espaço.

Nesta situação encontrar um livro específico era como tentar encontrar uma agulha num palheiro, principalmente se ele estivesse dentro de uma das várias caixas de papelão. Sempre que tal aconteceu pensamos em criar uma folha de cálculo onde, tal qual bibliotecários, colocaríamos os dados de cada livro e a sua localização. Tarefa tão hercúlea que nunca aconteceu.

Até que recentemente por obra do acaso, encontrei uma aplicação de telemóvel que faz exactamente isso. Et voilá! Essa aplicação proporcionou-me um método extremamente intuitivo, fácil e rápido de introduzir os dados de um livro numa base de dados com o mínimo de esforço.

Não vou aqui colocar o nome da aplicação, pois a finalidade deste post não é fazer publicidade a uma app específica, mas sim informar quem ainda não esteja a par do potencial de um programa como este. De qualquer forma quem estiver interessado é só fazer uma pequena pesquisa na playstore e vai encontrar várias deste tipo. É só escolher a que mais lhe convier.

A aplicação tem vários métodos de introdução de um livro, mas a mais aliciante, a meu ver, é a leitura do código de barras do ISBN que todos os livros recentes trazem na contracapa.

Ao passar o scanner pelo código ele, ao fazer a leitura correcta, dá um pequeno beep indicativo e se tiver acesso à Internet, ele automaticamente faz o download de título, nome do autor, editora, sinopse e até da capa do livro. Fantástico!

Pode também criar e adicionar estantes. Se necessário mover os livros de uma estante para outra com bastante facilidade. A aplicação faz buscas de todo o tipo e ordena os livros de múltiplas formas. Pode também escolher uma capa diferente para o livro ou então tirar uma foto da capa e adicionar essa foto ao livro em questão.

Outra vantagem é a de se estiver numa livraria com um determinado livro na mão e não tem a certeza se já o adquiriu, é só passar o código no scanner e a aplicação avisa se esse livro já existe na sua biblioteca e a sua localização, mesmo se o livro tiver uma capa diferente.

Na compra de um livro novo só tem de escolher a estante onde o irá colocar, passar o scanner no código de barras e em dois segundos ele será atribuído à sua biblioteca. Fácil!

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A Verborragia na Literatura.

por Paulo José Martins, em 17.12.22

Um dos livros que eu estou a ler agora é:” Max Perkins. Um Editor de Génios.” Este livro foi adaptado para o cinema em 2016. Esse filme, no entanto, passou um pouco ao lado da crítica, apesar de estar recheado de estrelas como Colin Firth, Jude Law e Nicole Kidman; entre outros. Como acontece com muita frequência com este tipo de trabalho independente, eu vi primeiro o filme e só depois de vasta pesquisa é que consegui adquirir o livro.

O livro fala de Max Perkins, da Charles Scribner's Sons, que foi considerado um dos maiores editores da sua geração. Perkins tinha o dom de descobrir talentos fantásticos e de conseguir trabalhar profundamente nos manuscritos dos seus autores, transformando o que seria uma boa obra numa obra excelente. Perkins trabalhou com nomes como: Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald ou Thomas Wolfe. Numa passagem lá para o meio do livro, é dito que a crítica literária de então achava Wolfe verborrágico.

O que para mim é uma questão interessante: o que é ser verborrágico? Será algo bom ou mau num autor? Thomas Wolfe escrevia cerca de 5 000 palavras por dia. O nosso Lobo Antunes diz que passa 12 horas por dia a escrever, o que, numa estimativa por alto, dá cerca de 12 000 palavras por dia. Brandon Sanderson diz que o seu recorde é de 18 000 palavras num só dia.

Por outro lado, temos José Saramago, que dizia escrever duas páginas por dia. O que se contabiliza entre 500 e 1 000 palavras por dia. James Joyce considerava um bom dia quando escrevia 10 palavras na ordem certa.

Ser verborrágico é um defeito ou uma qualidade? A mim parece-me que depende. Depende do efeito que a literatura consegue ter no leitor. Se move o leitor intelectualmente ou emocionalmente, significa que o autor cumpriu a sua função, independentemente do tamanho do trabalho.

Temos exemplos de livros grandes e livros pequenos. Livros que independentemente da quantidade de páginas que tem são maiores que o seu tamanho. Livros grandes como: “Em Busca do Tempo Perdido.”, de Marcel Proust. E livros pequenos, como: “Pedro Páramo.”, de Rulfo. Até mesmo o “Morreste-me”, de José Luís Peixoto, que em tamanho é pequeniníssimo, mas em conteúdo literário é um gigante.

Outro exemplo são os escritores que passaram a vida inteira a escrever um só livro. Autores como Rulfo ou Harper Lee e com esse nível de dedicação escreveram obras de nível mundial.

No final quem manda é o leitor. A arte só existe se alguém quiser assistir ou pagar por ela. Tenho no meu círculo de amigos, pessoas letradas, que não conseguem ler Lobo Antunes ou Al Berto e outras que raramente lêem, mas que quando fazem, têm de ler algo transcendental. Dizem que para corriqueira basta a vida.

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Os filhos pródigos voltaram a casa.

por Paulo José Martins, em 10.12.22

Durante muitos anos tivemos na nossa sala de estar quatro estantes forradas de livros. Era algo que me dava uma sensação de conforto e hospitalidade. Mas a certa altura, começamos a reparar que as visitas, ao chegarem cá a casa se deparavam com cerca de quinhentos livros, assim de chofre, e se sentiam intimidados, desconfortáveis e receosos.

Então resolvemos remover tanto as estantes como os livros, que foram para outro lado, mas desta vez dentro de caixas de papelão. Ou seja, ficamos com uma sala de estar vazia, despida e fria.

Foi assim durante anos. Foram anos em que eu me sentava no sofá sozinho de livros e perguntava a mim mesmo em que caixa estaria o “Hei de Amar Uma Pedra. “de Lobo Antunes, “O Mundo Alucinante.” de Reinaldo Arenas ou “Pedro Páramo. “ de Juan Rulfo. Foram anos de desespero, solidão e ansiedade.

Até que, recentemente, após vasta e serrada discussão, resolvemos repor os livros na sala, desta vez numas bonitas estantes com portas. Logo, a alegria voltou como o Sol depois de uma temporada de tempo nublado. E eu dei comigo sentado no sofá, admirando a vista, recordando livros que já li, livros que reli várias vezes e outros livros que por uma razão ou por outra não cheguei a ler.

E assim foi reposto o equilíbrio. Os filhos pródigos voltaram a casa e como tal também a alegria dos voltar a ver.

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Maina Mendes

por Paulo José Martins, em 03.12.22

Um dos meus múltiplos defeitos é ter uma atracção irresistível por livrarias. Há quem o tenha por pastelarias, quinquilharias e outras ninharias. Eu tenho por livrarias. Cada vez que vejo uma tenho de entrar para ver se há algum livro novo ou se algum dos livros que lá esteja me chama atenção.

E foi assim que de visita a Évora, entrei na Bertrand para ver se havia alguma novidade. E de facto, havia várias, mas nos dias de hoje, os livros são quase todos iguais, independentemente de editoras ou autores.

Todos os envolvidos na produçao de um livro querem maximizar as suas vendas, o que faz convergir num único ponto todas as características que deveriam fazer de um livro um objecto único. Sendo assim está cada vez mais difícil de encontrar alguma coisa que seja realmente diferente e inspirador.

Mas de vez em quando aparece algo novo, algo diferente, algo que eu não conhecia nem ouvira falar, algo que surpreendentemente me leve para um mundo novo, para outros universos, outras ideias, outras percepções.

Desta vez ao folhear vários livros que lá existiam, encontrei um livro pequenino da Assírio & Alvim escrito pela autora Maria velho da Costa, chamado:” Maina Mendes.”

O nome Maria Velho da Costa automaticamente sou-me a algo que eu conhecia, mas não sabia de onde. Então com uma rápida pesquisa descobri que Maria Velho da Costa fazia parte das três Marias que escreveram as famosas “Novas Cartas Portuguesas”, que recentemente celebraram os seus cinquenta anos.

Peguei neste pequeno livro, de uma autora que eu conhecia muito, muito à superfície e logo na primeira página ele me arrebatou completamente. O texto possui uma escrita completamente heterodoxa. A autora tem uma capacidade invulgar de manusear a língua portuguesa, de construir metáforas e de nos golpear incessantemente com sensações e sentimentos.

É de facto um livro que, apesar de ser pequeno e ter capítulos curtos, merece toda a nossa atenção. É um livro não para se ler, mas para se ir lendo. Ler, reler, compreender, pesquisar, ir à frente, voltar atrás, entender, mergulhar no livro sem medo da maré profunda que a autora tão sublimemente evoca.

São livros como estes que fazem leitores e bons leitores.

Se tiverem algum livro que vos tenha surpreendido positivamente, deixem a sugestão no comentário.

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Há muitos anos, estava eu desempregado, passei por uma loja de uma das maiores franchises de livrarias do país, onde se informava, na vitrine, mesmo em frente aos livros, que precisavam de colaborador.

Nesse momento de felicidade, vi a oportunidade de resolver duas situações da minha vida: primeiro a necessidade de ter um emprego e a segunda, a realização de um sonho que também me permitiria o contacto diário com livros, livreiros, editoras e quiçá, com alguma sorte, escritores.

Então entrei na loja, onde aliás, era cliente frequente. Identifiquei-me e informei a senhora de alguma idade que era a gerente da loja, a que propósito vinha. Prontamente foi-me dado um formulário que eu preenchi avidamente e devolvi à proveniência entusiasmado com a possibilidade.

A senhora que me tinha dado o dito formulário olhou por cima dos óculos e com um “Ah!!!”, disse em tom de exclamação: “Mas você não tem o 12º ano!” Aquilo para mim foi como um balde de água fria em ferro quente. Estaria eu a ser discriminado, não pela qualidade do meu conhecimento literário, mas pela extensão do meu sucesso académico?

Fiquei extremamente desapontado, tanto pela discriminação de que estava a ser alvo, como por ser bastante óbvio que eu não tinha hipótese de conseguir o emprego. Então eu olhei nos olhos da senhora e pedi, não olhando sequer para nenhuma das várias estantes que recheavam a loja: “Pergunte-me sobre qualquer livro que você tenha aqui na sua loja.“ A senhora baixou os olhos. Era óbvio que eu seria potencialmente o candidato mais conhecedor que ela iria encontrar e procedeu respondendo na esquiva perfeita: “São regras da empresa.”

Lembro-me de anos depois de ir a uma loja diferente da mesma franchise, para tentar encontrar Al Berto. Como nenhum dos colaboradores conhecia o escritor, pediram que eu falasse com a gerente que, por coincidência, era a mesma senhora que me tinha atendido da outra vez.

Desta vez, estava ela muito atarefada, desempacotando centenas de exemplares de um livro de Nora Roberts e quando eu perguntei por Al Berto ela respondeu: “Al Berto, não temos. “Um olhar chegou para ela me reconhecer e compreender em silêncio o caricato da situação. Dois dos seus colaboradores não conheciam sequer um dos maiores poetas contemporâneos portugueses e ela em vez de ter no portfólio da sua loja pelo menos um exemplar de Al Berto, estava a desempacotar centenas de livros de Nora Roberts.

Eu considero-me um bibliófilo. Condição que me calhou, mas que não pretendo tratar. Os bibliófilos na sua grande maioria têm dois sonhos: um é trabalhar numa livraria, outro é de um dia conseguir publicar livros da sua autoria. Visto que um desses já me foi vedado, resta-me ter esperança no segundo.

De facto, tenho passado a boa parte dos últimos 30 anos a escrever de tudo um pouco: desde contos, novelas, poesia, banda-desenhada e mesmo alguns livros, tanto de ficção como não-ficção. Alguns desses textos acabaram por ser publicados em revistas, outros entraram em concursos literários e até ganhei uns quantos prémios.

Recentemente, enchi-me de coragem e tendo quase uma dezena de livros na gaveta, resolvi que estava na altura de começar a enviar os manuscritos para as editoras avaliarem.

Então, não é que, para surpresa minha, pedem para enviar currículo junto com o manuscrito! Será que a publicação só será possível se o autor pertencer a uma determinada casta? Será obrigatório que o indivíduo que queira publicar tenha de ter curso superior? Será que o manuscrito vai ser avaliado, não pelo seu valor intrínseco, mas pelo sucesso académico do seu autor?

Seria possível publicar António Aleixo (vendedor de cautelas), José Saramago (serralheiro) ou mesmo William Faulkner (militar) não tendo nenhum deles curso superior?

Como é óbvio não me estou a tentar comparar com nenhum dos astros literários supracitados. Mas eu preferia que dissessem que meu trabalho e provavelmente com toda a razão, não presta, do que me recusassem a publicação por falta de grau académico.

Daí a questão: será possível publicar em Portugal sem ter curso superior?

O futuro o dirá.

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A Língua Portuguesa Agradece.

por Paulo José Martins, em 25.11.22

A saída em 2007 do famoso Kindle fez a leitura de e-books disparar. Fenómeno que recentemente foi igualado pelo surgimento dos audiolivros. De todos os que mais ganharam espaço foram os livros escritos ou lidos na língua inglesa.

De facto, ler num aparelho electrónico gerou variadas e férreas discussões ao longo dos anos. Conclusão: há quem adore e há quem odeie. No meu caso, permitiu-me ler mais e de forma mais abrangente. Permitiu-me ter acesso imediato a publicações que levariam anos a ser publicadas em Portugal, se fossem de todo.

Uma das vantagens de ler em inglês foi que permitiu expandir o meu conhecimento e aplicação da língua inglesa. A desvantagem foi que o meu português sofreu. Pois ler constantemente em inglês, criou uma insistência em construir frases em português usando as regras da gramática da língua inglesa. Outra desvantagem foi o surgimento inconsciente de todo o tipo de estrangeirismos, que aparecem por todo o lado, como ervas daninhas.

Portanto, o meu voto para os anos que se seguem é: consumir apenas livros escritos, publicados e comprados em Portugal.

A Língua Portuguesa agradece.

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"Don't be a Writer, be writing."

por Paulo José Martins, em 23.11.22

De vez em quando encontramos umas pequenas pérolas que nos fazem parar para pensar. Desta vez encontrei uma frase que me tocou particularmente. Foi uma frase onde o famoso escritor americano William Faulkner diz: "Don't be a writer, be writing." O que, grosso modo, quer dizer em português: "Não sejas um escritor, mas sim alguém que está sempre a escrever." 

É, a meu ver, uma metáfora que se aplica a todos os campos. Desde um Lobo Antunes, que segundo consta passa quatorze horas por dia a escrever; a um Cristiano Ronaldo que adiciona três treinos em casa aos dois treinos obrigatórios. 

Perdemos vidas inteiras mais preocupados com a meta do que com a corrida. Ficamos tão concentrados no sonho que nos esquecemos de fazê-lo acontecer. 

É caso para dizer: "Quando o sucesso chegar, vai-me encontrar aqui, a trabalhar."

 

 

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