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Memórias Daquela Vez Que Fui Ao "Regato".

por Paulo José Martins, em 17.03.24

Na zona rural em que eu vivia, havia um lugar que nós chamávamos de “regato”. O regato consistia, como o próprio nome indica, na bacia de um pequeno riacho que entretanto, por uma razão ou por outra tinha secado, deixando na planície o relevo côncavo do seu leito.

Numa altura em que não existiam playgrounds ou halfpipes, a concavidade deixada pelo riacho era o lugar ideal para os pré-adolescentes e adolescentes, fazerem todo o tipo de acrobacias nas suas bicicletas.

Eu e os vizinhos da mesma idade, quando sabíamos que os mais velhos iam para o regato, pegávamos nas nossas bicicletas, para entusiasmados irmos ver as manobras acrobáticas que os mais velhos conseguiam e que nós, os mais novos, assistíamos numa mistura de fascínio e terror.

No entanto, o regato ao longo dos anos tinha ganho uma má reputação juntos dos pais, devido à frequência com que os seus herdeiros apareciam em casa com os braços e pernas partidos e de bicicletas destruídas.

Todos nós fazíamos o possível para que os nossos pais não soubessem que tínhamos ido ao regato, em clara violação das ordens dadas, a custo de uma chinelada ou de pior que isso, ficar sem o brinquedo mais valioso que nós tínhamos: a própria bicicleta.

Um dos saltos mais fantásticos que era possível no regato consistia numa rampa, que tinha uma pista de aceleração de quase cento e cinquenta metros, e que alguém, com todos os requintes de malvadez, tinha exacerbado com um capô de carro inclinado sobre duas pedras, o que tornava o ângulo de lançamento ainda maior.

Se o salto fosse efectuado eficazmente era possível aterrar numa faixa de perto de trinta centímetros de largura, que no intenso Verão, era ladeada por todos os tipos de ervas secas e plantas espinhosas.

No entanto, essa rampa, permitia que um adolescente competente, vindo a toda a velocidade, conseguisse um magnífico voo de um metro e meio de altura, que o faria percorrer mais de doze metros pelo ar.

Até que um dia, estando eu sozinho no regato, tive a brilhante ideia de testar a rampa. Se não corresse bem, pelo menos não haveriam testemunhas para assistirem ao meu falhanço. Esta era a qualidade do raciocínio de um rapaz de onze anos que passava as tardes a ver filmes do Rambo, Chuck Norris e Jackie Chan.

Em vez de tentar um salto mais pequeno, decidi que quanto maior a velocidade, maior a possibilidade de sucesso. Então vim o mais para trás possível e acelerei a minha BMX ao máximo, ladeira abaixo, até que atingi a rampa que me lançou num voo fenomenal que durou vários segundos no ar.

O problema era que ninguém me tinha explicado o truque necessário para completar esta manobra com sucesso: aterrar com a roda de trás.

Resultado: aterrei com a roda da frente. O que imediatamente resultou num capotamento da bicicleta, projectando-me para a frente, onde eu falhando completamente a pequena risca de areia da faixa de aterragem, fiz uns dez metros de rojo, raspando a cara e o corpo na erva seca e espinhosa.

Com o passar do tempo os arranhões curaram-se, as dores desapareceram, mas na minha memória ficaram aqueles dois ou três segundos em que voei sem asas exactamente como tinha imaginado.

A minha mãe nunca soube. Mas, imagino eu que, quase quarenta anos depois, se ela ficasse a saber ainda me tirava a bicicleta.

 

 

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