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Pensamentos, Ideias e Sentimentos.

Na zona onde eu passei parte da minha infância e adolescência havia um “ritual de passagem”. Era bastante frequente que aos rapazes, uma fez feitos os doze anos, fosse oferecida uma espingarda de pressão.
Eu não fui excepção e nessa tenra idade lá me apareceu um tio com a dita espingarda da marca “Flecha”, que era provavelmente a marca mais barata do mercado e que consequentemente tinha um tiro tão lento que se podia ver o chumbinho prateado a sair do cano, para numa elipse, cair logo ali à frente, a não mais de dez metros de distância.
Junto com a dita espingarda vieram acompanhadas histórias megalomaníacas de safaris africanos e bestas terríveis, que o meu tio dizia, com uma palmadinha nas costas, que tinha caçado com uma “flecha” mesmo igual à minha.
No entanto, eu, apesar de ter algum talento para o tiro e para desilusão total de toda a família, (não seria a primeira vez, nem a última) não tinha grande vontade matar nenhum animal.
Não que eu tivesse alguma ideologia vegetariana. Mas desde cedo que entendia que a morte não deveria ser desporto. Que havia algo de errado e completamente arbitrário na morte de um animal pela gloria da apontaria.
Então a solução, que me divertia tardes a fio, era o chamado “tiro à carica”, começava por colocar várias caricas no pavimento e à distancia tinha de se fazer a carica levantar voo.
A carica na realidade é um alvo péssimo quando assente no chão, pois tem um perfil demasiado pequeno, tornando o tiro extremamente difícil. Ora se passa por cima ora se acerta no chão ricocheteando sem tocar no minúsculo alvo.
Mas lá de quando em vez, o tiro saia perfeito na mira, na altitude e em ângulo certeiro, de forma a conseguir apanhar a carica mesmo pela base, o que fazia a carica levantar voo, à laia de disco voador, rodando interminavelmente sobre si própria e a alta velocidade para realizar uma hipérbole longa e lenta para gaudio do sniper adolescente.
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