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Há muitos anos, estava eu desempregado, passei por uma loja de uma das maiores franchises de livrarias do país, onde se informava, na vitrine, mesmo em frente aos livros, que precisavam de colaborador.

Nesse momento de felicidade, vi a oportunidade de resolver duas situações da minha vida: primeiro a necessidade de ter um emprego e a segunda, a realização de um sonho que também me permitiria o contacto diário com livros, livreiros, editoras e quiçá, com alguma sorte, escritores.

Então entrei na loja, onde aliás, era cliente frequente. Identifiquei-me e informei a senhora de alguma idade que era a gerente da loja, a que propósito vinha. Prontamente foi-me dado um formulário que eu preenchi avidamente e devolvi à proveniência entusiasmado com a possibilidade.

A senhora que me tinha dado o dito formulário olhou por cima dos óculos e com um “Ah!!!”, disse em tom de exclamação: “Mas você não tem o 12º ano!” Aquilo para mim foi como um balde de água fria em ferro quente. Estaria eu a ser discriminado, não pela qualidade do meu conhecimento literário, mas pela extensão do meu sucesso académico?

Fiquei extremamente desapontado, tanto pela discriminação de que estava a ser alvo, como por ser bastante óbvio que eu não tinha hipótese de conseguir o emprego. Então eu olhei nos olhos da senhora e pedi, não olhando sequer para nenhuma das várias estantes que recheavam a loja: “Pergunte-me sobre qualquer livro que você tenha aqui na sua loja.“ A senhora baixou os olhos. Era óbvio que eu seria potencialmente o candidato mais conhecedor que ela iria encontrar e procedeu respondendo na esquiva perfeita: “São regras da empresa.”

Lembro-me de anos depois de ir a uma loja diferente da mesma franchise, para tentar encontrar Al Berto. Como nenhum dos colaboradores conhecia o escritor, pediram que eu falasse com a gerente que, por coincidência, era a mesma senhora que me tinha atendido da outra vez.

Desta vez, estava ela muito atarefada, desempacotando centenas de exemplares de um livro de Nora Roberts e quando eu perguntei por Al Berto ela respondeu: “Al Berto, não temos. “Um olhar chegou para ela me reconhecer e compreender em silêncio o caricato da situação. Dois dos seus colaboradores não conheciam sequer um dos maiores poetas contemporâneos portugueses e ela em vez de ter no portfólio da sua loja pelo menos um exemplar de Al Berto, estava a desempacotar centenas de livros de Nora Roberts.

Eu considero-me um bibliófilo. Condição que me calhou, mas que não pretendo tratar. Os bibliófilos na sua grande maioria têm dois sonhos: um é trabalhar numa livraria, outro é de um dia conseguir publicar livros da sua autoria. Visto que um desses já me foi vedado, resta-me ter esperança no segundo.

De facto, tenho passado a boa parte dos últimos 30 anos a escrever de tudo um pouco: desde contos, novelas, poesia, banda-desenhada e mesmo alguns livros, tanto de ficção como não-ficção. Alguns desses textos acabaram por ser publicados em revistas, outros entraram em concursos literários e até ganhei uns quantos prémios.

Recentemente, enchi-me de coragem e tendo quase uma dezena de livros na gaveta, resolvi que estava na altura de começar a enviar os manuscritos para as editoras avaliarem.

Então, não é que, para surpresa minha, pedem para enviar currículo junto com o manuscrito! Será que a publicação só será possível se o autor pertencer a uma determinada casta? Será obrigatório que o indivíduo que queira publicar tenha de ter curso superior? Será que o manuscrito vai ser avaliado, não pelo seu valor intrínseco, mas pelo sucesso académico do seu autor?

Seria possível publicar António Aleixo (vendedor de cautelas), José Saramago (serralheiro) ou mesmo William Faulkner (militar) não tendo nenhum deles curso superior?

Como é óbvio não me estou a tentar comparar com nenhum dos astros literários supracitados. Mas eu preferia que dissessem que meu trabalho e provavelmente com toda a razão, não presta, do que me recusassem a publicação por falta de grau académico.

Daí a questão: será possível publicar em Portugal sem ter curso superior?

O futuro o dirá.

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1 comentário

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Francisco Carita Mata a 27.11.2022

Muito bem escrito e explicado. Parabéns. Não desista.

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