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A Verborragia na Literatura.

por Paulo José Martins, em 17.12.22

Um dos livros que eu estou a ler agora é:” Max Perkins. Um Editor de Génios.” Este livro foi adaptado para o cinema em 2016. Esse filme, no entanto, passou um pouco ao lado da crítica, apesar de estar recheado de estrelas como Colin Firth, Jude Law e Nicole Kidman; entre outros. Como acontece com muita frequência com este tipo de trabalho independente, eu vi primeiro o filme e só depois de vasta pesquisa é que consegui adquirir o livro.

O livro fala de Max Perkins, da Charles Scribner's Sons, que foi considerado um dos maiores editores da sua geração. Perkins tinha o dom de descobrir talentos fantásticos e de conseguir trabalhar profundamente nos manuscritos dos seus autores, transformando o que seria uma boa obra numa obra excelente. Perkins trabalhou com nomes como: Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald ou Thomas Wolfe. Numa passagem lá para o meio do livro, é dito que a crítica literária de então achava Wolfe verborrágico.

O que para mim é uma questão interessante: o que é ser verborrágico? Será algo bom ou mau num autor? Thomas Wolfe escrevia cerca de 5 000 palavras por dia. O nosso Lobo Antunes diz que passa 12 horas por dia a escrever, o que, numa estimativa por alto, dá cerca de 12 000 palavras por dia. Brandon Sanderson diz que o seu recorde é de 18 000 palavras num só dia.

Por outro lado, temos José Saramago, que dizia escrever duas páginas por dia. O que se contabiliza entre 500 e 1 000 palavras por dia. James Joyce considerava um bom dia quando escrevia 10 palavras na ordem certa.

Ser verborrágico é um defeito ou uma qualidade? A mim parece-me que depende. Depende do efeito que a literatura consegue ter no leitor. Se move o leitor intelectualmente ou emocionalmente, significa que o autor cumpriu a sua função, independentemente do tamanho do trabalho.

Temos exemplos de livros grandes e livros pequenos. Livros que independentemente da quantidade de páginas que tem são maiores que o seu tamanho. Livros grandes como: “Em Busca do Tempo Perdido.”, de Marcel Proust. E livros pequenos, como: “Pedro Páramo.”, de Rulfo. Até mesmo o “Morreste-me”, de José Luís Peixoto, que em tamanho é pequeniníssimo, mas em conteúdo literário é um gigante.

Outro exemplo são os escritores que passaram a vida inteira a escrever um só livro. Autores como Rulfo ou Harper Lee e com esse nível de dedicação escreveram obras de nível mundial.

No final quem manda é o leitor. A arte só existe se alguém quiser assistir ou pagar por ela. Tenho no meu círculo de amigos, pessoas letradas, que não conseguem ler Lobo Antunes ou Al Berto e outras que raramente lêem, mas que quando fazem, têm de ler algo transcendental. Dizem que para corriqueira basta a vida.

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Há muitos anos, estava eu desempregado, passei por uma loja de uma das maiores franchises de livrarias do país, onde se informava, na vitrine, mesmo em frente aos livros, que precisavam de colaborador.

Nesse momento de felicidade, vi a oportunidade de resolver duas situações da minha vida: primeiro a necessidade de ter um emprego e a segunda, a realização de um sonho que também me permitiria o contacto diário com livros, livreiros, editoras e quiçá, com alguma sorte, escritores.

Então entrei na loja, onde aliás, era cliente frequente. Identifiquei-me e informei a senhora de alguma idade que era a gerente da loja, a que propósito vinha. Prontamente foi-me dado um formulário que eu preenchi avidamente e devolvi à proveniência entusiasmado com a possibilidade.

A senhora que me tinha dado o dito formulário olhou por cima dos óculos e com um “Ah!!!”, disse em tom de exclamação: “Mas você não tem o 12º ano!” Aquilo para mim foi como um balde de água fria em ferro quente. Estaria eu a ser discriminado, não pela qualidade do meu conhecimento literário, mas pela extensão do meu sucesso académico?

Fiquei extremamente desapontado, tanto pela discriminação de que estava a ser alvo, como por ser bastante óbvio que eu não tinha hipótese de conseguir o emprego. Então eu olhei nos olhos da senhora e pedi, não olhando sequer para nenhuma das várias estantes que recheavam a loja: “Pergunte-me sobre qualquer livro que você tenha aqui na sua loja.“ A senhora baixou os olhos. Era óbvio que eu seria potencialmente o candidato mais conhecedor que ela iria encontrar e procedeu respondendo na esquiva perfeita: “São regras da empresa.”

Lembro-me de anos depois de ir a uma loja diferente da mesma franchise, para tentar encontrar Al Berto. Como nenhum dos colaboradores conhecia o escritor, pediram que eu falasse com a gerente que, por coincidência, era a mesma senhora que me tinha atendido da outra vez.

Desta vez, estava ela muito atarefada, desempacotando centenas de exemplares de um livro de Nora Roberts e quando eu perguntei por Al Berto ela respondeu: “Al Berto, não temos. “Um olhar chegou para ela me reconhecer e compreender em silêncio o caricato da situação. Dois dos seus colaboradores não conheciam sequer um dos maiores poetas contemporâneos portugueses e ela em vez de ter no portfólio da sua loja pelo menos um exemplar de Al Berto, estava a desempacotar centenas de livros de Nora Roberts.

Eu considero-me um bibliófilo. Condição que me calhou, mas que não pretendo tratar. Os bibliófilos na sua grande maioria têm dois sonhos: um é trabalhar numa livraria, outro é de um dia conseguir publicar livros da sua autoria. Visto que um desses já me foi vedado, resta-me ter esperança no segundo.

De facto, tenho passado a boa parte dos últimos 30 anos a escrever de tudo um pouco: desde contos, novelas, poesia, banda-desenhada e mesmo alguns livros, tanto de ficção como não-ficção. Alguns desses textos acabaram por ser publicados em revistas, outros entraram em concursos literários e até ganhei uns quantos prémios.

Recentemente, enchi-me de coragem e tendo quase uma dezena de livros na gaveta, resolvi que estava na altura de começar a enviar os manuscritos para as editoras avaliarem.

Então, não é que, para surpresa minha, pedem para enviar currículo junto com o manuscrito! Será que a publicação só será possível se o autor pertencer a uma determinada casta? Será obrigatório que o indivíduo que queira publicar tenha de ter curso superior? Será que o manuscrito vai ser avaliado, não pelo seu valor intrínseco, mas pelo sucesso académico do seu autor?

Seria possível publicar António Aleixo (vendedor de cautelas), José Saramago (serralheiro) ou mesmo William Faulkner (militar) não tendo nenhum deles curso superior?

Como é óbvio não me estou a tentar comparar com nenhum dos astros literários supracitados. Mas eu preferia que dissessem que meu trabalho e provavelmente com toda a razão, não presta, do que me recusassem a publicação por falta de grau académico.

Daí a questão: será possível publicar em Portugal sem ter curso superior?

O futuro o dirá.

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